sábado, 1 de fevereiro de 2014

O acaso é a escolha mais livre

São Paulo, filosofia, a nova vida de professor universitário, o filme do Lars von Trier: tudo o que se fala nesta mesa. Mas se virar a esquina para a esquerda, um baseado passa de mão em mão e a fumaça sobe em volta do grafite de um menino negro e pobre. Ou se preferir, sentido litoral, tem o morro do sabão. Diante do morro, cólicas mestruais. As pernas escorrem sangue. Ao longe, o mar. Um deserto de caminhada sem fim. E pra variar, no hemisfério norte, três mexicanos abandonam um brasileiro em meio a outro deserto.

- Dizem que a morte no deserto é a melhor que tem, você fica molinho, molinho e apaga, desidrata, nem sente.

O celular epilético se contorce dentro do bolso. Ela te liga todo o dia? Mais de uma vez por dia? Não vai atender? Agora não, daqui a pouco. Tenho que ir. Tão cedo? Ela tá te cercando, fique esperto. Eu vou levando...

Na mesma rua, um portão de garagem se abre para uma família de ácaros. Em meio às antiguidades, levo o meu dedão à boca e chupo, feito criança. Ele retorna molinho, molinho, feito morte no deserto.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Fragmentossauros

Um dinossauro corre pela sala em busca de comida. Nasceu há pouco e tem fome. Seus pézinhos se arrastam pelo tapete e as mãos agarram tudo o que vê. Já passa da hora do almoço, mas agora ele está deitado no tapete com pernas e braços para cima feito um bicho-preguiça. Uma cobra avança por suas mãos. Quando voltar a cantar, não vai mais fumar. A porta bate com força e os gritos são em alemão, não dá para ouvir a novela.

- Vamos brincar de barquinho nas profundezas do sofá.

sábado, 2 de novembro de 2013

Na beira da estrada ou no gato preto.

O salto e a calçada de paralelepípedos nunca se deram muito bem. Contara 234 passos até chegar e achava o número um tanto místico. Procurou a mesa de sempre, no lugar de sempre, a vista de sempre. Outros saltos se misturaram ao seu, mas o lugar nunca lota. O velho companheiro tocava um clássico da vida noturna que fez com que seus lábios articulassem algumas palavras já cansadas de serem pronunciadas. Havia também uma cerveja, que era succionada à conta-gotas. Nenhuma pessoa sozinha ia, nenhuma pessoa vinha. No banheiro: retocou o batom, rímel, blush. E com as mãos acariciou o copo. Estava atenta aos olhares. Foi então que um par de pés se aproximou. Dois sapatos pretos e mal lustrados aumentavam a cada passo. Descruzou as pernas e cruzou novamente. Virou o copo na boca com gosto e ao retorná-lo à mesa, se viu sozinha novamente.

- FILHA DA PUTA!

Foi o que ela quis dizer, mas se corrigiu a tempo.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Um lugar chamado Boca Maldita

Em frente ao relógio central da rua XV entre os sons dos estalos dos calcanhares que voltavam às suas casas, qualquer ruído era silêncio perto do turbilhão que é pensar em algo para ser dito. Suportava um hálito de cigarro e um papo sobre qualquer coisa que tanto podia ser Foucault quanto Tati Quebra-Barraco. Em Curitiba, tudo tanto pode ter um ar pedante quanto sincero. Era como o bar que os acolhia com suas mesas planejadamente desorganizadas sobre a rua, feito um boteco, mas o preço era para turista. E a cada chopp o som ao redor se acalmava. As mãos já não estavam mais presas ao bolso e as pernas mais abertas. Quase podia soltar uma risada menos tensa e ideias mais soltas. Quase podia se juntar aos ruídos da rua XV. Quase podia se afastar do relógio sem precisar passar pela boca maldita.
- Amigos, a saideira.
A verdade é que em Curitiba o bar fecha no quase.

domingo, 6 de outubro de 2013

Poeira.

Quando bateu na porta sentiu vontade de voltar, descer o elevador e andar umas dez quadras. Para longe. Exalava cigarro e álcool, mas ninguém ia sentir no apartamento vazio. Do outro lado da cidade: cartões de crédito trabalhavam como navalhas para o dia nascer feliz. Uma ligação. O telefone do outro lado da cidade tocou. Não sentiu culpa, dormiu. E já era de manhã quando um nariz gelado encostou na sua nuca.